domingo, 16 de julho de 2017

PADRE JESUÍTA MIGUEL KELLNER



                                     (Escrita do Pe. Kellner - registros de 1871) 
                          Homenagem Póstuma ao Pe. Jesuíta Michael Kellner    

O Padre Jesuíta Miguel Kellner veio ao Brasil em 1849, recém formado pela Faculdade de Teologia de Munique da Baviera (Alemanha), atuou de 1849 até 1863 em São José do Hortêncio/RS, como Padre adjunto do Pe. Jesuíta Sedlak. Era um coadjutor jovem, apto para a missão, por isso foi destinado  para atender as capelas mais longínquas do Vale do Caí e Encosta da Serra. Visitou as capelas a cavalo, por estradas de chão perigosas e muitas vezes lamacentas, enfrentou intempéries, frio,  animais selvagens e em suas andanças fez amizade com indígenas.
De 1863 a 1870, foi padre vigário da “freguesia” de São José do Hortêncio. De 1866 a 1869, cumulou os cargos de vigário e de  Superior dos Missionários Jesuítas do Sul do Brasil. Em 1871 foi nomeado primeiro Vigário de Montenegro, cargo que exerceu até 1879.
À época, havia carência de padres preparados para o ofício de coadjutor, pois além da capacidade de entender e falar diversos idiomas, precisavam ser corajosos para andar por estradas cercadas pelo mato, ter habilidade e resistência física para encarar longas distâncias a cavalo, bem como saúde estável para enfrentar o frio e as intempéries. Na qualidade de padre vigário, oficiou ao seu superior, Dom Sebastião Dias Laranjeira, bispo de Porto Alegre, solicitando o suprimento de vagas de coadjutores para locais de difícil acesso, em especial à Encosta da Serra, habitada por imigrantes germânicos, italianos, austríacos, suíços, poloneses e sírios.
       Em 01 de agosto de 1874, o Pe. Miguel Kellner noticiou ao seu superior sobre o alastramento da varíola na região, principalmente entre os índios. Referiu a necessidade do exercício da caridade e da ajuda espiritual. As pessoas, que não haviam se contagiado com o vírus, evitavam sua aproximação dos enfermos e dos que pereceram. O Vigário justificou também, que os indígenas “ficaram só ao cuidado do padre, abandonados de quase toda ajuda humana. Deus faça frutificar tantos atos de bondade e misericórdia realizados”.1
      Padre Miguel Kellner também recepcionou as levas de imigrantes italianos, que aportaram em Montenegro, a partir de 1874. Em 01 de agosto de 1876, ainda na qualidade de pároco, redigiu outra correspondência ao seu superior, manifestando compaixão e preocupação com o isolamento, para colônias distantes, de cerca de 300 imigrantes europeus, do Tirol meridional, Suíça francesa e Itália, maioria católicos. Referiu, que o grupo permaneceu na praça da matriz de Montenegro, durante quatro meses (aguardando a liberação dos lotes da região de Garibaldi e Bento Gonçalves). Nesse interregno, foram assíduos frequentadores das missas. “Lamentamos muito que foram para regiões incultas e longínquas para derrubar mato. Às vezes eles vem de lá, com grandes sacrifícios”.2
       Na qualidade de Padre vigário, participou de missas especiais e  festivas. O escritor Campos Neto, autor da obra “Montenegro”, registrou detalhes de uma missa festiva de crisma, ocorrida em 1873, na Capela Nossa Senhora da Purificação de Bom Princípio, capela pela qual Pe. Kellner respondia como pároco. No início da solenidade uma tropa de mais de sessenta cavaleiros tocavam diversos instrumentos musicais, enquanto cavalgavam. Os fiéis conduziram Dom Sebastião Dias Laranjeira, bispo de Porto Alegre, juntamente com Padre Kellner, à luz de archotes, até a capela para a celebração da missa solene, que foi acompanhada pelo coral da comunidade. Já dentro da igreja, “que de longe parecia toda em fogo, ouviu-se muitos tiros de uma peça de artilharia sem carreta, que os mancebos da colônia carregavam de munição”.3
Em 1880, com 57 anos de idade, Padre Kellner voltou ao cargo de coadjutor, em São Sebastião do Caí, com a missão de atender as capelas da encosta da serra. Para ficar mais próximo da região colonial, fixou residência na Estação Missionária, junto a Capela da Purificação de Bom Princípio.
Exerceu a antiga atividade por pouco tempo, pois no dia 02 de janeiro de 1883, após as confissões realizadas na Capela de Picada Cará (Feliz), deslocou-se a Bom Princípio, a cavalo, para cumprir outra sessão de confissões. Ao realizar a travessia, próximo ao “passo” do Selbach não conseguiu vencer a correnteza, resultando em sua morte trágica. No  local, entre Escadinhas (Feliz) e Bela Vista (Bom Princípio), foi edificada uma placa de concreto em sua memória. 
Na história do Vale do Caí, há dois registros de afogamentos de jesuítas. O primeiro a sucumbir nas águas do rio Caí foi o Pe. Miguel Kellner (Michael), em 1883, reverenciado na capela Bela Vista e o segundo afogamento ocorreu em 1895, vitimando o Pe. João Batista Ruland (Johann), reverenciado no cemitério da  Capela Santo Inácio de Morro das Batatas/Alto Feliz (RS).



Obs. Após a leitura de um texto sobre os jesuítas do RS, onde foi mencionado o Padre  Miguel Kellner como coadjutor, sem mais referências, passei a pesquisar para saber mais sobre a vida dele. Foi gratificante, pois nessas pesquisas descobri que meus bisavós e trisavós contribuíram com suas habilidades, adquiridas na Europa, para a instalação dos pioneiros imigrantes do Vale do Caí e Encosta da Serra: meu bisavô materno (Capitão Wenceslau Wartha), austríaco, foi capitão da guarda nacional de Montenegro e Garibaldi e subintendente de São Vendelino; meu bisavô paterno (Jacob Barth), filho de imigrantes alemães, carreteiro, auxiliou na condução de mercadorias e bagagens dos imigrantes italianos, do Porto Guimarães de S.S. do Caí a Nova Milano/Vicenza; meu trisavô materno (Prof. Otto Frederico Kronitzky), polonês, era professor e dirigente de coral em Bom Princípio e São Vendelino, meu trisavô paterno (Capitão Carlos Scheider), imigrante austríaco, agrimensor imperial, mediu  as terras da Colônia de Rio Novo (ES) e por volta de 1874 mudou-se com a sua equipe a São Vendelino (RS), para a medição dos lotes da terceira colônia (Garibaldi e Bento Gonçalves) para a instalação dos imigrantes italianos e por fim,   entre diversos documentos analisados e obras lidas, constatei, que minha bisavó materna, Catharina “Kellner”, austríaca, era prima do padre Miguel Kellner. Gratidão!

Rosa Maria B. Kaspary
Pesquisadora   

1- SHOHR, SJ, Padre Inácio. Montenegro -  Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus – Paróquia São João Batista. Porto Alegre: BRB, 1895, p.7 e 10.
2- CAMPOS NETTO, José Cândido de. MONTENEGRO. Reeditado em 2014. Montenegro: Irmãos Gehlen, 1924, p.339.
3 -Livro de Batismos nº 1,  Montenegro, Paróquia São João Batista. 
4- Montenegro de Ontem e de Hoje, KAUTZMANN Maria Eunice Müller, 1978.




segunda-feira, 4 de julho de 2016

As Videiras as Uvas e o Vinho

       O cultivo das videiras foi registrado, pela primeira vez, nos papiros dos Faraós do Egito. Além dos vinhedos às margens do rio Nilo, havia videiras nas Ilhas Gregas e na Grécia. Os vinhedos também se estenderam ao longo da Bacia do Mediterraneo, pelo Império Romano.1 
Diferentes versículos, em várias citações bíblicas, corroboram a existência das vinhas, uvas e do vinho: “Chegando ao Vale do Cacho, cortaram um ramo de videira com um cacho de uvas, e o penduraram numa vara transportada por dois homens; colheram também romãs e figos.” “Salomão tinha uma vinha em Baal-Hamon: deu a vinha aos meeiros e do fruto dela cada um lhe traz mil moedas de prata”.2
Na região Sul do Brasil, os Padres Jesuítas foram os pioneiros no cultivo das vinhas e fabricação de vinho. Edificaram suas igrejas, do lado direito o colégio e ao lado esquerdo um convento e o cemitério da comunidade. Ao fundo, numa área, com muro de pedras, havia uma horta, pomar com frutas de procedência europeia e o vinhedo. Com as uvas faziam o vinho para as celebrações eucarísticas.3
Em 1742, os portugueses de Açores e da Ilha da Madeira vieram ao Rio Grande do Sul, com suas castas de uvas portuguesas e francesas, iniciando a plantação das vinhas pela região de Rio Grande. Em 1748 começou o plantio de viníferas portuguesas no litoral gaúcho e também nos arredores da Lagoa dos Patos. Em 1807, existiam vinhedos em Viamão e Gravataí. 3
 A videira americana Isabel, extremamente resistente a doenças e pragas, espalhou-se rapidamente e entre 1839 e 1842, foi cultivada na Ilha dos Marinheiros. Em Pelotas, o capitão-mor Manoel Bento da Rocha, fabricava de 5 a 6 pipas de vinho. Na mesma época, em Rio Pardo, Manuel Macedo chegou a produzir 15 pipas num ano, merecendo honrosa provisão da Junta de Comércio do Rio de Janeiro.4-5
A partir de 1875 vieram os pioneiros imigrantes italianos, destinados à Encosta Superior do Nordeste do Rio Grande do Sul, mais precisamente a Farroupilha, Caxias do Sul, Garibaldi, Bento Gonçalves e Veranópolis. O imigrante Tommaso Radaelli, morador da Primeira Légua Milanês (Nova Milano, Farroupilha), tentou adaptar à nova terra bacelos de uva, trazidos da Itália. Preocupado com o insucesso, não sabia como dar-lhe remédio. Em 1877, a esperança de voltar a ter vinho foi avivada, quando avistou uma propriedade com um pequeno vinhedo de uva Isabel, de procedência americana, que estava aos cuidados de Jacó Ruschel, filho do comerciante Sebastião, que forneceu-lhe alguns bacelos. Consoante Pellanda, o imigrante Radaelli: "Descendo de suas montanhas com os primeiros produtos para venda no Caí, se depara nas imediações de Feliz com as belas latadas de Isabel do colono germânico e desta entrou a fazer a base da vinicultura rio-grandense”.5- 6
 Ressalta-se, que o cultivo das videiras Isabel prosperou na região serrana, em face de sua robustez e grande resistência mesmo às geadas tardias, rebrota carregada de cachos.
Com o passar dos anos os imigrantes italianos introduziram outras variedades de uvas americanas, como a Oberlim, que adquiriram dos vizinhos germânicos de Alto Feliz. Em 1886, alguns imigrantes da região serrana gaúcha, perceberam que a terra era fértil e que seria viável o cultivo de videiras. Entre eles se encontrava Pierrucini, de Caxias do Sul, um grande propagador das videiras, que motivado pelos resultados satisfatórios, importou outras variedades viníferas europeias, tais como a Babera, Trebbiano e Vernaccia.5
Por volta de 1896, o governo do Estado do Rio Grande do Sul importou bacelos e fundou uma Estação Experimental de Agronomia em Caxias do Sul, para análise do vinho produzido e outras medidas indispensáveis, sobretudo à conservação do produto. Em 1898 a Secretaria do Estado adquiriu 25.000 bacelos por intermédio da Casa João Adolfo da Fontoura Freitas, que foram distribuídos aos colonos de Caxias do Sul, Antônio Prado, São Marcos, Veranópolis, Ijuí, Bento Gonçalves, e também a agricultores de São Leopoldo, bairro Tristeza e a proprietários de chácaras da capital. No ano seguinte o governo importou do Uruguai mais 20.000 bacelos.5
Por volta de 1890, passou-se a vender o vinho do comerciante colonial da região serrana gaúcha para o comerciante dos centros de consumo como: São Sebastião do Caí, Montenegro, São Leopoldo e Porto Alegre e novamente Antônio Pierrucini estava à frente, com suas longas tropas de mulas carregadas de barris de vinho. 7
Em 1898, Abramo Eberle e Antônio Pierrucini, industriais e agricultores caxienses introduziram o vinho rio-grandense em São Paulo. Pierrucini conduziu os barris em lombos de burros até São Simão, onde foram vendidos. No ano de 1900, Abramo Eberle levou graspa e vinho a São Paulo, ambos foram bem aceitos.5
 Hodiernamente, os descendentes de imigrantes italianos enaltecem a uva e o vinho em suas festas. Em Caxias dos Sul comemora-se a Festa Nacional da Uva, em Bento Gonçalves a Fenavinho, em Flores da Cunha a Fenavindima, em Garibaldi a Fenachamp, Festa do Espumante Brasileiro e na Forqueta, em Caxias do Sul, a Festa do Vinho Novo.
                                                                      Rosa Maria B.Kaspary 
                                                                                  Advogada e Pesquisadora
 1 JOHNSON, Hugh. A História do Vinho. São Paulo: CMS, 1999, p. 21.
2 BÍBLIA SAGRADA. Sociedade Bíblica Internacional e Paulus. 40. Ed.  São Paulo: Paulus, 1990. Números, Capítulo 13, versículos 22 e 23; João, Capítulo 15, Versículo 1; Cântico dos Cânticos, Capítulo 8, Versículo 11.
3 DAL PIZZOL, Rinaldo. A História da Uva e do Vinho no RGS. In: Revista do Vinho.Jan./fev. 1990, Bento Gonçalves: 1990.
4 PIMENTEL, Fortunato. Aspectos Gerais da Vitivinicultura Rio-grandense. Porto Alegre: Sul Impressora, 1950, p 46.
5 PELLANDA, Ernesto. Aspectos Gerais da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul. In: Álbum Comemorativo do 75º Aniversário da Colonização Italiana no R.G.do Sul. Porto Alegre: Globo, 1950, p. 34-64.
6 MELLO, Carlos Ernesto Cabral de Mello. A História do Vinho no Brasil – Escola do Vinho.61.ed.São Paulo: Adega, 2010, p.14.

7 SOUZA, Júlio Seabra Inglez de. Uvas para o Brasil. Piracicaba: FEALQ, 1996, p. 103-104.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Luís Bugre

                                   LUÍS BUGRE
Em 1847, Luís Bugre foi adotado pela família de Matias Rodrigues da Fonseca,  portugueses, moradores da Colônia Feliz (Feliz/RS). Foi batizado na igreja católica de São José do Hortencio, com o nome de Luís Antonio; aprendeu a falar a língua portuguesa com seus curadores e a língua alemã com os vizinhos e amigos. Ao completar 20 anos de idade abandonou o lar português e passados alguns meses, retornou para apresentar a sua companheira, que era indígena, ou cabocla, com a qual morou durante anos na encosta do morro Canastra, em São Vendelino/RS. Por volta de 1870, após a fuga de Jacob Versteg (1) do cativeiro, Luís Bugre sumiu do lugarejo. [...]
GANSWEIDT, Matias José. DAMIÃO, Eugênio. As vítimas do Bugre. Porto Alegre: Selbach, 1946, p.40.
Nota: Meu bisavô paterno, Jacob Barth, imigrante alemão, carreteiro, transportou cargas do porto do Guimarães (São Sebastião do Caí/RS) a Nova Vicenza (Farroupilha/RS) e relatou aos seus descendentes, que seguidamente cruzava com Luís Bugre e sua matilha de cães de caça, pelas cercanias de Nova Milano. Alegava, que o “Buga” não era ruim. Apenas queria ser valorizado e rebelava-se ao ser discriminado, ou excluído. Apreciava falar sobre suas caças. 
Meu outro bisavô paterno, Francisco Xavier Boeni, imigrante suíço, morou em São Vendelino, foi vizinho da família Versteg e também conhecia Luís Bugre. Consoante Gansweidt,(p.69 e 79) Xavier foi integrante da primeira expedição de resgate dos Versteg. O sogro de Xavier, meu trisavô  paterno, "capitão" Carlos Schaeder, austríaco, agrimensor Imperial (Edital Jornal da Victória da Província do Espírito Santo de 01/07/1868), mediu os lotes da 3ª colônia (Garibaldi, Bento Gonçalves) e possivelmente também conhecia o  indígena.     
Meu trisavô materno, Frederico Otto Grunitzky (Kronitzky), ex-Brummer, imigrante de origem polonesa; em 1868, ano do sequestro dos Versteg, exercia a função de professor público (Campos Netto, p.488), maestro do coral de Santa Maria da Soledade (São Vendelino) e padre leigo (Kautzmann, Obra Montenegro de Ontem e de Hoje, fl 159). Indubitavelmente, conhecia detalhes das andanças de Luís Antonio pelo lugarejo e da mesma forma, meus bisavós maternos, Joseph Kronitzky e Maria Tiatton Dietrich (natural da República Tcheca), moradores da Linha Boêmia, local próximo a Nova Milano.  
Meu outro bisavô materno, Wenzel (Wenceslau) Wartha, imigrante austríaco, Capitão do Batalhão de Infantaria Imperial (Montenegro), contraiu núpcias com Khetrin Kellner, imigrante austríaca, em 1897 foi removido, com sua equipe, ao 5º Distrito - São Vendelino (Diário Oficial da União, exemplar nº 8979). De 1910 até 1924 foi subintendente de Santa Maria da Soledade (Campos Netto, p.456). A partir de 1913 cumulou a função de subintendente com a de subdelegado de Polícia de São Vendelino, Garibaldi (Campos Netto, p.465 e edital do Diário Oficial de 14/10/1913). Possivelmente, acompanhou parte da trajetória do indígena pela região.  
Obs. Na época era praxe a realização de casamentos entre os filhos de integrantes do Exército Imperial, líderes comunitários, professores,  comerciantes, agrimensores, ou administradores de colônias.                
Rosa Maria B. Kaspary
Pesquisadora, poetisa e advogada


                                   LUIS BUGRE
                                        Rosa Maria B. Kaspary
1.     No alto da serra, na selva
Nasceu um grande guerreiro
Com ares de sorrateiro
Na tez, tatuagem marcante
Jovem, coroado aspirante
Em sua tribo era parceiro.

2.     Nicuó, seu velho cacique
Ceji, a pajé da aldeia
Em noites de lua cheia
Vagavam em plagas distantes
Por roças dos imigrantes
Colhendo cultura alheia.

3.     Naquela noite funesta
Em fila indiana marchavam
Arcos e flechas portavam
Sem suspeitar da cilada
Que em Feliz foi armada
Nas plantações, que visavam.

4.     Roças de milho e mandioca
Com cordas foram cercadas
Pontas estavam ligadas
Na lata próxima ao leito
Com o tropeçar do sujeito
As bases foram acionadas.

5.     Donos munidos de rifles
Pelos arbustos rondaram
Cães em alvoroço, avançaram.
Com seus latidos e gritos
Ladrões ficaram aflitos
No rio Caí se jogaram.

6.     No milharal esqueceram
Um menininho lesado
Por alemães foi tratado
Foi-lhe nomeado tutor
Um corajoso senhor.
Ficou aportuguesado.


                      Véu da Sina (Luís Bugre)
                      Rosa Maria B. Kaspary
1.    Luís Antonio era seu nome
      Durante sua adolescência
      Somou uma vasta experiência
      De ir à roça, não gostava
      Com sua tribo negociava
      Ia à serra com frequência.

2.   Trocou mel, peles e aves
                 Por espelhos, sal e cachaça
                 Exibia as peles da caça:
                 Seu orgulho, suas vitórias
                 Os parceiros dessas glórias              
                 Eram doze cães sem raça.


3.   Foi morar em São Vendelino
                 Já com vinte anos de idade
                 Com a parceira, sem vaidade
                 No Canastra, na encosta.
                 A família não era exposta
                 Se isolou da sociedade.

4.   Ao seu chão, Campo dos Bugres
                  Com frequência retornava
                  Pelos matos se encontrava
                 Com os compadres e parceiros
                 Corresselva, aventureiros
                  Novidades lhes contava.

5.   Com o sequestro dos Versteg
                  Luís Antonio se ocultou
                 Temeroso, se mudou
                 À selva, em Nova Milano
                 Num rancho de chão serrano
                 Onde um mestre se tornou.

6.   Na demarcação dos lotes
                  Auxiliou agrimensores
                  Foi o guia dos senhores
                  Conduziu-os a Farroupilha
                  Avançou, seguindo a trilha
                  Doce berço de valores.   

7.   Aos pioneiros italianos
                  Transmitiu sua experiência
                  Regras de sobrevivência
                  Caçar e colher pinhão
                  Acender fogo de chão
                  Os segredos da sua essência.

8.   Luís foi um guia bilíngue
                  Um rei dos matos serranos
                  Auxiliou e traçou planos
                  Viveu em tempos penosos
                  Prestou serviços valiosos
                  Foi parceiro dos Milanos!






 





sábado, 4 de outubro de 2014

Garibaldi (Conde D'Eu), Bento Gonçalves (Princesa Isabel) e Carlos Barbosa

                                                        Garibaldi
           Os desbravadores de Garibaldi foram imigrantes de diversas etnias, contudo, apesar da diversificação, a cultura italiana predominou. As famílias sírias: Koff, Nehme, Mereb, Lahude e Nejar, desenvolveram o centro da cidade com suas casas comerciais. Ao longo da estrada Buarque de Macedo também foram edificados hotéis.
Em 1913 a família do Engenheiro agrimensor Manoel Peterlongo, natural de Trento, do Tirol italiano, produziu  o primeiro “champanhe” do Brasil chamado de Peterlongo.
          As vinícolas são as maiores atrações da região: 80% do espumante e 60% do vinho nacional são fabricados em Garibaldi e região. As vinícolas “Chandon”, Georges Aubert”, “Peterlongo”, dentre outras, permitem a visitação e degustação. Além de ser a terra do espumante, Garibaldi também é o maior produtor de frango do Rio Grande do Sul e segundo maior do Brasil.[1]
O município emancipou-se de Montenegro no dia 31 de outubro de 1900 e teve como primeiro prefeito o Cel. Jacob Nicolao Ely (1900/1908). O foro da Comarca foi criado no dia 05 de dezembro de 1964 e o primeiro Juiz de Direito foi o Dr. Fernando Rosa Grassi.
A cidade comemora anualmente a Fenachamp - Festa do Espumante Brasileiro, nos pavilhões da Fenachamp.
No início da imigração a comunidade de Garibaldi enfrentou muitas agruras, porém os seus líderes sempre acreditaram na força do seu povo e isso se constata no estribilho do Hino às Uvas, composto em 1913, pelo Intendente do Município (prefeito), Coronel Affonso Aurélio Porto:
 “Que de uvas se engrinalde
  Teu solo, amado torrão,
  Fazendo de Garibaldi
  A terra da Promissão”.  
O hino mais se parece com uma profecia. É profundo e inspirador, ao ponto que ousei responder o refrão: 
Na terra da promissão
Jorram vinhos espumantes
Nas taças, há coroação
Com as gotas borbulhantes. (Rosa M.B.Kaspary)

E toda região serrana, se “engrinaldou”! É o resultado do trabalho e da persistência do povo Italiano, que plantou, investiu e desenvolveu técnicas para chegar à excelência. 

                                            Bento Gonçalves

No início do século XX, a rede ferroviária chegou à região, facilitando o escoamento da produção de vinho, proporcionando uma base econômica sólida para o município.
Os imigrantes italianos trouxeram em suas bagagens o conhecimento milenar, adquirido com os ancestrais: eram agricultores, com inclinação à viticultura, carpinteiros, ferreiros, marceneiros, sapateiros, alfaiates etc. No início careciam de matéria prima, porém adaptaram suas experiências e gradativamente foram se aperfeiçoando. Em 1883, oito anos após a chegada dos pioneiros a Nova Milano, o sociólogo e publicitário Carlos Von Koseritz relatou em sua coluna da Gazeta de Porto Alegre: 
“Quem atravessa as três grandes colônias italianas do Estado, como nós atravessamos, e vê as numerosas roças que foram abertas no mato virgem, as parreiras, sem número e sem conta, as bem construídas casas de tábuas, os numerosos moinhos, fábricas de vinho, cerveja e aguardente, fábrica de móveis, de madeira e palha, os teares, as oficinas, que existem por toda parte, fica realmente surpreendido por tão extraordinário progresso”.(Fortini,p, 14)   
Hodiernamente o município é conhecido como a capital brasileira do vinho e se configura como o maior produtor de uvas do Rio Grande do Sul e o maior produtor de vinhos e derivados de uva do Brasil. Várias das empresas de destaque no cenário nacional tem sua sede em Bento Gonçalves, como: Vinícola Aurora, Vinhos Salton, Miolo Wine Group e Casa Valduga. Além das grandes empresas também há outras, bem como, as pequenas vinícolas familiares que contribuem com a diversidade e qualidade dos produtos elaborados. Existem aproximadamente 79 vinícolas instaladas no município.[2]
Bento Gonçalves emancipou-se de Montenegro no dia 11 de outubro de 1890 e seu primeiro prefeito foi o Cel. Antônio J. Marques de Carvalho Junior (1892/1924) e o segundo foi o Eng. João Batista Pianca (1924/1928).
O foro da Comarca foi criado no dia 17 de dezembro de 1907 e o primeiro Juiz de Direito foi o Dr. José Gonçalves Ferreira Costa e Promotor de Justiça o Dr. José Bernardo de Medeiros Junior.
A cidade recebe anualmente milhares de turistas, oferecendo aos seus visitantes o famoso passeio de “Maria Fumaça” com o trem que passa pela Ferrovia do Vinho, onde em cada estação são realizadas apresentações folclóricas, com uma parada em  Garibaldi, sendo sua última estação em Carlos Barbosa.
Um dos lugares mais visitados pelos turistas é o Vale dos Vinhedos de Bento Gonçalves, formado por parreirais, vinícolas, hotéis e restaurantes. O centro da cidade também é visitado, em especial a vinícola Aurora, Clube Ipiranga, igreja e os restaurantes com suas comidas típicas italianas.    
Bento Gonçalves realiza anualmente a Festa Nacional do Vinho - FENAVINHO. Além da uva e do vinho, o município também se destaca no setor moveleiro e realiza anualmente a Expo-Bento, no Parque de Eventos, no bairro Fenavinho, uma das maiores feiras multissetoriais do Brasil.

                                    Carlos Barbosa
         Os primeiros imigrantes que habitaram o município foram os luso brasileiros. Em 1855 os primeiros imigrantes alemães, franceses, poloneses, suíços valesanos, portugueses e espanhóis se instalaram em Carlos Barbosa. Por volta de 1875, um numeroso grupo de italianos, procedente de oito regiões da Itália, maioria do Vêneto e da Lombardia, estabeleceu-se na região para completar o povoamento. 
      Os engenheiros, agrimensores e serviçais de Porto Alegre, Montenegro e São Sebastião do Caí mudaram-se para Carlos Barbosa com o objetivo de administrar e legalizar os lotes das colônias.[3]
        Carlos Barbosa emancipou-se de Garibaldi no dia 25 de setembro de 1959 e teve como primeiro prefeito José Chies e vice-prefeito Ernesto Antônio Carlotto (1960/1963).
       O foro da Comarca foi criado no dia 10 de janeiro de 1985 e a primeira Juíza de Direito foi a Dra. Ana Beatriz Iser.
           Atualmente a fábrica Tramontina destaca-se na produção de talheres, panelas, pias e equipamentos elétricos e a Cooperativa Santa Clara na industrialização do leite e seus derivados. A cidade recebe anualmente milhares de turistas, oferecendo aos seus visitantes o famoso passeio de trem (Maria Fumaça), pela Ferrovia do Vinho, com parada em  Garibaldi, tendo como última estação a cidade de Bento Gonçalves.   
          O Município comemora anualmente a Festiqueijo, que é uma festa tradicional italiana, com farta gastronomia, evento que é realizado no salão paroquial da Igreja matriz da cidade.
Rosa Maria B. Kaspary
Pesquisadora










[2]BentoGonçalves, disponível em: www.bentogoncalves.rs.gov.br/consultado em 21/07/2014. 
[3] Carlos Barbosa disponívelem:http://www.carlosbarbosa.rs.gov.br/,consultado em 20/07/2014